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SUFFOCATION
Manifesto Bar - São Paulo/SP
30 de setembro de 2017
Por Valtemir Amler / Fotos: Pri Secco
 
Sejamos justos: uma banda do naipe do Suffocation dispensa apresentações. Mesmo assim, todos sabemos que o mundo da música nem sempre é justo, sabemos também que é difícil medir a popularidade real de uma banda nesses tempos de milhares de “curtidas” e vendas de discos escassas. Mas, sobretudo sabemos que trinta anos de História totalmente dedicada ao bom e velho death metal, longe de firulas e modismos e mais importante e infinitamente mais relevante do que tudo isso. Não se tratava de uma banda qualquer que tocaria naquele chuvoso último dia de setembro na Capital Paulista, mas sim o Suffocation, uma das bandas que deu o tom e o volume do death metal de Nova York, e uma das precursoras do lado mais extremo do gênero em todo o mundo.



Então, na verdade a chuva insistente e o trânsito decorrente dela não fizeram muito para nos desanimar diante da perspectiva de cruzar a cidade para chegar ao Manifesto Bar. Sem guarda-chuva e sob muita chuva partimos, e mais molhados do que batata-frita do tiozinho da esquina chegamos ao local, onde o Siriun já começava a sua curta apresentação. Única das atrações da noite não estritamente ligada ao death metal, a banda rapidamente mostrou que não estava ali por acaso, e entregou um show furioso, maciço, de pegada moderna e que cativou os então poucos presentes. A chuva não nos impediu de ir ao show, mas ela atrasou a maioria... Uma pena.



Em seguida, uma das grandes bandas da segunda geração do death metal nacional, o poderoso Gestos Grosseiros. Formado hoje pelo trio Kleber Hora (guitarra), Eduardo Ossucco (baixo) e Andy Souza (bateria e vocal) que chegou já incitando os presentes a agitar, o grupo começou a aula de terror com a fenomenal The Antichrist, uma das faixas mais legais do terceiro disco completo dos caras, “World’s Hypocrisy”, que foi lançado este ano. Não pense porém que eles não tocaram aquelas velharias que tanto amamos, pois discos como “Countdown to Kill” (2007) e “Satanchandising” (2011) não são o tipo de música que aceita ficar em segundo plano, e podreiras antigas como Slaves of Imagination, Human Destruction e Countdown to Kill dividiram espaço de forma serena com bagaceiras novas de alto poder de destruição, como Intellectual Death e Crushing the Cross.



Para o segundo período desta noite de aula de death metal, os PhD’s do Suffocation. Infelizmente sem a presença do baixista Derek Boyer e do vocalista Frank Mullen, o show felizmente foi melhor do que prometia ser, muito por conta do talento e do carisma do guitarrista monstro e com o talento que só ‘pacto com o capeta’ explica Terrance Hobbs, um cara que certamente ‘zerou’ o Guitar Hero com uma só mão enquanto comia uma salada de grão de bico e brincava com o cachorro. Que guitarrista absurdo! Acompanhando o cara, o não menos talentoso baterista Eric Morotti, o guitarrista Charlie Errigo e o vocalista Kevin Muller que vem cumprindo realmente bem o seu papel ao vivo. Nessas horas, você se pergunta: ‘pra que começar o show assim, manos?’. Estávamos lá, encharcados até os ossos, os cabelos pingando mais chuva do que teto de ponto de ônibus, e os caras já chegam mandando Thrones of Blood, um dos mais inspirados sons do clássico “Pierced From Within” (1995)? Excelente ideia, pois o clima esquentou ao ponto de evaporar até a cerveja na garganta!



A segunda foi a própria Pierced From Within, e, nesta altura, já nem lembrávamos mais se existia algo chamado chuva, tão profundamente o fogo do death metal assolava as almas ali presentes. Além de talentoso, Kevin Muller se mostra um vocalista empolgado, e nem por um instante deixa de instigar o público, que já se vê maluco com as sequências de riffs assombrosas e a pegada extremamente rápida de Terrance Hobbs, que destrói sua guitarra enquanto Charlie Errigo pula tão alto que parece estar usando um jetpack.



Return to the Abyss finalmente colocou o bom “...Of the Dark Light” (2017) no jogo, e foi rapidamente seguida por Funeral Inception, do EP “Despise the Sun” (1998). Nessa altura, os mais fanáticos já estavam com a garganta inflamada de tanto pedir pela clássica Catatonia, mas eles teriam que esperar ainda um pouco mais. Eric Morotti praticamente destruiu o mundo com as linhas de As Grace Descends (Pinnacle of Bedlam, 2013), e então, depois da soberba Surgery Of Impalement (Souls to Deny, 2004), finalmente veio Catatonia, anunciada por Muller como a primeira música gravada pelo Suffocation, e sob os aplausos e gritos mais duradouros de toda a noite. E não importa quanto tempo passe, esse clássico concebido há longos 26 anos no EP “Human Waste” realmente é insuperável, e não por nada é considerado um dos clássicos absolutos do death metal. No fim, cada pingo de chuva valeu a pena diante desse momento único... Mas tomar chuva de novo depois do show foi sacanagem!


 

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