SWU: SERÁ QUE FOI TÃO BOM ASSIM?
16.NOVEMBRO.2011 | CATEGORIA: Textos


Há muito tempo o Brasil tenta emplacar um festival de Rock nos moldes dos realizados na Europa. Porém, quanto mais se tenta, mais se percebe que ainda estamos longe do tão sonhado "primeiro mundismo".
 
O "Rock In Rio", que recentemente viu realizada sua quarta edição no Brasil, além das críticas em relação ao cast, pecou na infraestrutura. Quem foi fez relatos desanimadores no que se refere a qualidade de banheiros, agilidade para comprar qualquer tipo de alimento (as filas eram quase intransponíveis) e aos esquemas de acesso e saída do local.
 
No último final de semana, foi a vez do SWU, cuja segunda edição estreava casa nova, a cidade de Paulínia (SP), localizada na região de Campinas. E o que prometia ser um exemplo de organização novamente foi um show de erros primários e até de descaso com o público.
 
De cara, a malfadada listinha do que podia e do que não podia entrar no lugar, divulgada no próprio site do festival, não correspondia à realidade. Objetos que não constavam nessa lista foram confiscados (canetas, por exemplo), enquanto outros teoricamente proibidos circulavam livremente, como guarda-chuvas (meio esquisito levar guarda-chuva em show de Rock, mas cada um com sua mania) e camisas de times de futebol (proibição pra lá de esdrúxula, convenhamos).
 
Lá dentro, a realidade era a de terra de ninguém. Para descobrir a localização da sala de imprensa, tive que me informar com um colega jornalista, já que nenhum dos três sujeitos com crachá escrito "produção" pendurado no pescoço fazia a menor ideia de onde ficava o lugar. Sequer a informação de qual era o palco "Consciência" e qual era o "Energia" foi possível obter, já que os integrantes da produção simplesmente não sabiam (ou informavam errado).
 
Com o tempo, era fácil descobrir que o "W" de SWU devia significa "walking". A área de mais de um milhão de metros quadrados apresentava vazios imensos e desnecessários, dando a impressão de que os organizadores desejavam apenas ter um número grandioso para aparecer em algum cantinho de alguma edição futura do livro Guinness – algo como "show de música realizado em maior área ao ar livre" ou coisa parecida. Em metade do espaço existente seria possível fazer um festival com as mesmas atrações e a mesma estrutura.
 
A chuva foi outro problema. "Pô, mas chuva não é culpa de ninguém!", alguém pode rebater. Verdade. Mas marcar um festival ao ar livre para uma região que historicamente é assolada pelas chuvas nessa época do ano é o mesmo que brincar com fogo. Pior: a região de Campinas também é conhecida pela ventania intensa. Daí que não foi surpresa quando a chuva moderada que caiu no domingo, acompanhada de um forte vento, tenha inundado o palco em que se apresentaria o Ultraje a Rigor – o atraso e suas consequências já foram amplamente divulgados. E já fica o alerta: transferir o festival para setembro, como já anunciado, só vai antecipar em 60 dias o problema. Acabou agosto, é chuva é vento a qualquer hora na região – falo isso por ser morador dela há mais de vinte anos.
 
As informações sobre o total de público também podem ser questionadas. No domingo, dia em que este redator esteve no lugar, não havia as 51 mil pessoas anunciadas nem que cada espectador fosse contado duas vezes. No principal e mais lotado show do dia, do Lynyrd Skynyrd, era possível se aproximar do palco sem dificuldade.


 
Mas será que foi tudo um lixo, então? De forma alguma. Um dos aspectos principais num show de Rock e que nem sempre é tratado com o devido cuidado esteve perto do impecável no SWU: o som. Pode até ter faltado um pouco de volume em algumas apresentações, como na do interessante Tedeschi Trucks Band, mas, fora isso, o som que vinha do palco se mostrava cristalino e superdefinido. E olha que tivemos as mais diversas formações nesse dia, de banda de Rock a show acústico, passando por uma orquestra completa.
 
Aliás, isso leva a outra reflexão. Um cast que tinha tudo pra dar certo chegou perto do fracasso pelo formato dos shows. O show de Chris Cornell, apenas com voz e violão, deve funcionar à perfeição num bar – que é onde ele vem acontecendo lá fora, aliás. Num festival para alguns milhares de pessoas fica estranho e gera um anticlímax. Tudo bem que era impossível a vinda do Soundgarden, mas a banda solo de Chris (muito boa, por sinal) já seria mais que suficiente – e bem melhor. Da mesma forma, deve ser esplêndido ouvir Peter Gabriel (que continua com voz soberba, aliás) se apresentar com orquestra num teatro – nunca debaixo de chuva.
 
Na hora de ir embora, o último transtorno: ainda por culpa da chuva (e de quem não preferiu "não saber" que ela poderia acontecer a qualquer momento), o estacionamento se transformou num verdadeiro atoleiro. Segundo consta, os motoristas tiveram que se virar e teve gente que encheu as burras guinchando os carros para fora do lamaçal por módicos R$ 70 (segundo consta, o estacionamento já custava R$ 100).
 
Ou seja, há muito ainda que evoluir. Lá fora os shows/festivais acontecem de forma superorganizada, chuvas ou outras intempéries não são problema, os horários são cumpridos rigorosamente e os preços não são estratosféricos.
 
Por fim, a coisa fica mais complicada quando quem organiza ainda se coloca na postura de "dar exemplo" e vincula a tal sustentabilidade ao evento. Como levar a sério um festival que faz esse discurso e praticamente não disponibiliza latas de lixo para o público?




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Antonio Carlos Monteiro
Redator
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