O BLUES E O METAL
9.MARÇO.2012 | CATEGORIA: Textos
Uma das muitas coisas legais que vem junto com esse negócio de trabalhar com crítica musical é a oportunidade de conhecer músicos dos mais variados estilos associados ao Rock. Do blueseiro cheio de 'feeling' ao sujeito que se dedica a fazer Noise/Grind, já conheci um pouco de tudo em todos esses anos. E recentemente tive a satisfação de bater um papo com um representante do primeiro exemplo que ainda não conhecia. Paulo Gazela é, antes de tudo, um especialista em Blues. Gaitista e vocalista, chegou a apresentar o espetáculo "Resgatando a História do Blues" em que banda e grupo de teatro se misturavam para mostrar como surgiu e qual a importância histórica desse gênero que acabou se tornando a base de tudo o que veio depois sob o nome de "Rock".



Naquele rápido encontro, Paulo me passou seu primeiro trabalho solo, Singin' Good Ol' Songs With Good Ol' Friends, título que não poderia ter sido melhor escolhido. As doze faixas do CD se deixam ouvir com facilidade, graças ao repertório bem escolhido (as "good ol' songs") e ao time irrepreensível de músicos que Paulo convocou para acompanhá-lo (os "good ol' friends"). E não demorou para, lá na segunda ou terceira ouvida do disco, eu me lembrar de uma entrevista que tive oportunidade de fazer com o sempre interessante Carlos Lopes, ex-Vândalo, ex-Dorsal Atlântica, atual Mustang e mais um monte de coisas – Carlos deve ter sido uma daquelas crianças hiperativas e insuportáveis... A verdade é que num papo com Carlos você nunca perde a viagem e naquela conversa em questão, lá pelas tantas, ele falou: "O problema do Heavy Metal de hoje é que o pessoal deixou o Blues de lado." As palavras não foram textualmente essas, mas o sentido foi rigorosamente preservado.

Como quase sempre acontece com as declarações mais ousadas, o sentido do que Carlos falou não foi percebido de imediato. Só depois, na hora da transcrição da entrevista, foi que aquela frase ficou martelando na cabeça do redator. E ficou evidente que ela poderia ser interpretada de mais de uma forma. A primeira, tomando-se textualmente a declaração de Carlos. O Rock vem traçando seu caminho desde os anos 50 através de uma óbvia e saudável absorção de influências. O começo foi, de fato, o Blues. E daí a ele se uniu o Country, depois a música Pop, alguém resolveu botar mais peso no negócio (mas sem abrir mão de suas características iniciais) e assim foi até que alguns resolveram deixar de lado aquela base. Incrível, mas dá pra fazer o teste: ouça seu artista favorito e tente perceber se o Blues ainda está lá. Garanto que você vai conseguir perceber.



E há um outro jeito de encarar a coisa: através do 'feeling'. Não sé segredo pra ninguém que o Blues é um gênero interpretado com alma, normalmente falando dos sentimentos mais profundos de um homem. O que nos leva ao filme "Crossroads", que relata a história de um bluesman buscando desfazer um pacto com o Capeta. Nessa saga, ele é acompanhado por um jovem músico que deseja descobrir os segredos do Blues. Lá pelas tantas, o veterano explica: "O Blues é a história de um homem bom se sentindo mal por causa de uma mulher." Ou seja, é o homem tratando de seus sentimentos mais puros e mais primitivos. Uma música, enfim, que não dá pra se fazer de forma mecânica, sem sentimento. E aí cabe mais uma ouvida no Metal, principalmente no feito hoje em dia. Quantas bandas/músicos estão realmente colocando sentimento ali? Quantos não estão nesse ramo apenas buscando outras coisas (e não me refiro apenas ao "outro" metal...) e deixando a essência de lado? Porque, convenhamos, se estamos falando de arte, seja sob a forma que for, ela tem que se indissociável do seu motor principal: o sentimento – ou 'feeling', se preferir.

E aí me permito voltar a Paulo Gazela e seu Singin' Good Ol' Songs With Good Ol' Friends. Se você estiver de mau humor, vai encontrar defeito ali – já vi mal-humorado botando defeito até em Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, ou seja, quando o sujeito quer ser ranheta ele consegue se superar! Porém, a essência está lá: aquelas velhas músicas com aqueles velhos amigos dando mais que sangue, oferecendo seus sentimentos em prol do Blues. Exatamente como toda música tinha que ser.


NÓS VAMOS INVADIR SUA PRAIA – QUANDO TUDO COMEÇOU
6.JANEIRO.2012 | CATEGORIA: Textos
Mais um pacote que chega pelos Correios, só que dessa vez não é um embrulho qualquer. A simpática e talentosa escritora e colega jornalista Andréa Ascenção enviou seu livro "Nós Vamos Invadir Sua Praia" (Editora Belas-Letras, 350 págs.), saborosa obra que relata com precisão, simplicidade e bom humor a história de um dos grupos seminais do Rock brasileiro, o Ultraje a Rigor.
 
E, a despeito de o estilo da banda nem sempre se adequar à linha editorial da ROADIE CREW, não dá pra negar a importância e a qualidade de seu trabalho, principalmente se analisarmos a questão pelo viés histórico. E, no caso deste redator, a relação com a banda, se não chega às vias da intimidade, acabou se tornando, no mínimo, marcante.
 
Corria o ano de 1985. A primeira edição do "Rock In Rio", apesar de todos os seus equívocos, acabou sendo um divisor de águas na história do Rock no Brasil. Foi a partir dali que as bandas nacionais passaram a trabalhar com um mínimo de condições e foi quando os astros internacionais começaram a incluir nosso país nas suas turnês mundiais. A consequência natural disso foi uma maior abertura por parte da mídia para o "novo" estilo, culminando com o surgimento de publicações especializadas.
 
Sempre querendo unir minhas duas paixões – Rock e Jornalismo –, vi ali uma boa chance para dar um passo além da assessoria de imprensa estatal. E não demorou para surgir a primeira oportunidade: no início daquele mesmo 1985, a editora carioca que publicava as revistas "Roll" (especializada em Rock e Pop em geral), "Metal" (Heavy Metal e Hard Rock) e "Mix" (técnicas e equipamentos) precisava de um setorista em São Paulo, onde eu morava na época. Encaminhei o material solicitado e me pediram um texto para avaliação. Fui cobrir, por conta própria, um show com três bandas iniciantes – uma delas atendia pelo nome de Capital Inicial... Texto enviado, não demorou para receber o tão esperado telefonema. Num português bem claro: eu estava "dentro"!
 


Com a cena do Rock brasileiro em total ebulição, a primeira matéria para a qual fui escalado foi justamente a cobertura do show de lançamento do primeiro disco do Ultraje a Rigor, o até hoje atual Nós Vamos Invadir Sua Praia. Num universo em que tudo, de Blitz a Kid Abelha, era chamado de "Rock", eu acreditava que o Ultraje era um dos poucos grupos a honrar de fato esse nome – Ira!, Plebe Rude e Barão Vermelho eram alguns dos (poucos) outros que eu julgava dignos desse epíteto.
 
E lá fui eu cobrir o show do Ultraje a Rigor no extinto mas na época famosíssimo Rádio Clube. O ritual de se apresentar junto à assessoria de imprensa, receber uma credencial (ou pulseira) e entrar na casa "passando na frente" de todo mundo, algo que se tornaria uma rotina nas quase três décadas que se sucederam, foi um acontecimento quase surreal naquele dia. Desde que, adolescente, devorava os textos de revistas como "Rock, a História e a Glória", principalmente aqueles assinados pelo genial Ezequiel Neves, meu sonho era ser crítico de Rock. "Crise vocacional" é um problema que nem imagino como seja...
 
E lá estavam Roger (voz e guitarra), Carlinhos (guitarra), Maurício (baixo) e Lêospa (bateria) no palco – e eu ali embaixo, encarregado de relatar tudo para os leitores da revista "Roll". Foi um belíssimo show, com a casa lotada por um público insano por ver a banda no palco (mas nada sequer próximo do que aconteceria poucos meses depois com o RPM... Só que essa história fica para uma outra oportunidade). Procurei relatar tudo que ocorreu da forma mais fiel possível, e lendo hoje minha resenha confesso que o texto final ficou até certo ponto ingênuo – apesar de que a emoção está lá e, no fim das contas, é isso que importa.
 
A partir de então, foi uma pauta atrás da outra. Entrevistei em questão de meses bandas como Titãs, RPM, Ira!, Inocentes e o próprio Ultraje. Não parei até hoje, nem pretendo. Se o Jornalismo é uma cachaça pelo tanto que vicia, o Jornalismo musical deve ser pior que heroína... E aquele primeiro show acabou se tornando um marco para mim, que foi totalmente revivido ao ler (devorar?) o livro de Andréa Ascenção.
 
Um detalhe bastante interessante para encerrar: o lançamento do LP (era isso que existia naquela época...) Nós Vamos Invadir Sua Praia aconteceu exatamente no dia 13 de julho de 1985. Nessa mesma data, nos EUA e na Inglaterra, acontecia o festival "Live Aid", que, como todo mundo sabe, foi um evento promovido pelo vocalista Bob Geldof, do terrível Boomtown Rats, com o objetivo de levantar fundos para amenizar a fome que devastava a Etiópia. Por conta da importância desse evento, o dia 13 de julho passaria a ser o Dia Mundial do Rock. O mesmo dia em que, num país que ainda dava seus primeiros passos no assunto "Rock", comecei minha trajetória na crítica musical. Provavelmente o destino quis dizer alguma coisa com essa coincidência...

SWU: SERÁ QUE FOI TÃO BOM ASSIM?
16.NOVEMBRO.2011 | CATEGORIA: Textos


Há muito tempo o Brasil tenta emplacar um festival de Rock nos moldes dos realizados na Europa. Porém, quanto mais se tenta, mais se percebe que ainda estamos longe do tão sonhado "primeiro mundismo".
 
O "Rock In Rio", que recentemente viu realizada sua quarta edição no Brasil, além das críticas em relação ao cast, pecou na infraestrutura. Quem foi fez relatos desanimadores no que se refere a qualidade de banheiros, agilidade para comprar qualquer tipo de alimento (as filas eram quase intransponíveis) e aos esquemas de acesso e saída do local.
 
No último final de semana, foi a vez do SWU, cuja segunda edição estreava casa nova, a cidade de Paulínia (SP), localizada na região de Campinas. E o que prometia ser um exemplo de organização novamente foi um show de erros primários e até de descaso com o público.
 
De cara, a malfadada listinha do que podia e do que não podia entrar no lugar, divulgada no próprio site do festival, não correspondia à realidade. Objetos que não constavam nessa lista foram confiscados (canetas, por exemplo), enquanto outros teoricamente proibidos circulavam livremente, como guarda-chuvas (meio esquisito levar guarda-chuva em show de Rock, mas cada um com sua mania) e camisas de times de futebol (proibição pra lá de esdrúxula, convenhamos).
 
Lá dentro, a realidade era a de terra de ninguém. Para descobrir a localização da sala de imprensa, tive que me informar com um colega jornalista, já que nenhum dos três sujeitos com crachá escrito "produção" pendurado no pescoço fazia a menor ideia de onde ficava o lugar. Sequer a informação de qual era o palco "Consciência" e qual era o "Energia" foi possível obter, já que os integrantes da produção simplesmente não sabiam (ou informavam errado).
 
Com o tempo, era fácil descobrir que o "W" de SWU devia significa "walking". A área de mais de um milhão de metros quadrados apresentava vazios imensos e desnecessários, dando a impressão de que os organizadores desejavam apenas ter um número grandioso para aparecer em algum cantinho de alguma edição futura do livro Guinness – algo como "show de música realizado em maior área ao ar livre" ou coisa parecida. Em metade do espaço existente seria possível fazer um festival com as mesmas atrações e a mesma estrutura.
 
A chuva foi outro problema. "Pô, mas chuva não é culpa de ninguém!", alguém pode rebater. Verdade. Mas marcar um festival ao ar livre para uma região que historicamente é assolada pelas chuvas nessa época do ano é o mesmo que brincar com fogo. Pior: a região de Campinas também é conhecida pela ventania intensa. Daí que não foi surpresa quando a chuva moderada que caiu no domingo, acompanhada de um forte vento, tenha inundado o palco em que se apresentaria o Ultraje a Rigor – o atraso e suas consequências já foram amplamente divulgados. E já fica o alerta: transferir o festival para setembro, como já anunciado, só vai antecipar em 60 dias o problema. Acabou agosto, é chuva é vento a qualquer hora na região – falo isso por ser morador dela há mais de vinte anos.
 
As informações sobre o total de público também podem ser questionadas. No domingo, dia em que este redator esteve no lugar, não havia as 51 mil pessoas anunciadas nem que cada espectador fosse contado duas vezes. No principal e mais lotado show do dia, do Lynyrd Skynyrd, era possível se aproximar do palco sem dificuldade.


 
Mas será que foi tudo um lixo, então? De forma alguma. Um dos aspectos principais num show de Rock e que nem sempre é tratado com o devido cuidado esteve perto do impecável no SWU: o som. Pode até ter faltado um pouco de volume em algumas apresentações, como na do interessante Tedeschi Trucks Band, mas, fora isso, o som que vinha do palco se mostrava cristalino e superdefinido. E olha que tivemos as mais diversas formações nesse dia, de banda de Rock a show acústico, passando por uma orquestra completa.
 
Aliás, isso leva a outra reflexão. Um cast que tinha tudo pra dar certo chegou perto do fracasso pelo formato dos shows. O show de Chris Cornell, apenas com voz e violão, deve funcionar à perfeição num bar – que é onde ele vem acontecendo lá fora, aliás. Num festival para alguns milhares de pessoas fica estranho e gera um anticlímax. Tudo bem que era impossível a vinda do Soundgarden, mas a banda solo de Chris (muito boa, por sinal) já seria mais que suficiente – e bem melhor. Da mesma forma, deve ser esplêndido ouvir Peter Gabriel (que continua com voz soberba, aliás) se apresentar com orquestra num teatro – nunca debaixo de chuva.
 
Na hora de ir embora, o último transtorno: ainda por culpa da chuva (e de quem não preferiu "não saber" que ela poderia acontecer a qualquer momento), o estacionamento se transformou num verdadeiro atoleiro. Segundo consta, os motoristas tiveram que se virar e teve gente que encheu as burras guinchando os carros para fora do lamaçal por módicos R$ 70 (segundo consta, o estacionamento já custava R$ 100).
 
Ou seja, há muito ainda que evoluir. Lá fora os shows/festivais acontecem de forma superorganizada, chuvas ou outras intempéries não são problema, os horários são cumpridos rigorosamente e os preços não são estratosféricos.
 
Por fim, a coisa fica mais complicada quando quem organiza ainda se coloca na postura de "dar exemplo" e vincula a tal sustentabilidade ao evento. Como levar a sério um festival que faz esse discurso e praticamente não disponibiliza latas de lixo para o público?


 
Antonio Carlos Monteiro
Redator
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